
Custa-me lidar com a morte…
Por muito que o tempo passe, por muitas vezes que tenha realizado ou tenha de realizar o ritual de arranjar flores (em tempos arrancava-as de propósito – preferia assim, não sei bem porquê) para prestar uma última homenagem a alguém que passou e, quase sempre mais importante, dar um abraço (de) amigo a alguém que chore essa passagem, por muito que me tente convencer de que tenho de combater em mim a dor, com tantos anos já, das passagens que me marcaram, que me doeram, continuo a dizer sempre a mesma coisa: não lido bem com a morte.
Mas, hoje, acho que a minha forma de a encarar piorou… a propósito de um velório, a que fui porque não prescindiria nunca de abraçar uma enorme amiga que sente e disfarça a dor da passagem de alguém que lhe foi muito querido, senti-me morto (matado não é correcto, mas expressaria melhor a sensação que tive: a de ter morrido de “morte matada”, como dizia, brincando, quando era puto, por contraponto à morte natural, a que chamava “morte morrida”).
Depois de ter estado um pouco com quem lá me levara, acima de tudo, tentei abeirar-me de uma outra pessoa que estava lá também e que – disfarçando de igual maneira – sentia, decerto, a mesma dor da minha amiga. Essa pessoa (de quem me sinto amigo, de quem senti amizade, durante muito e muito bom tempo, mas que me riscou do “círculo” por uma estupidez que sei mal ultrapassada, se é que ultrapassável) ostensiva e dolorosamente virou-me as costas e nem sequer me deu tempo para que a cumprimentasse, lhe transmitisse a vontade de estar perto para o que fosse preciso, como sinto que (alguém que se sinta) amigo deve querer estar: pura e simplesmente virou-me as costas…
Doeu-me. Doeu cá bem dentro, pela sensação de que aquele gesto era, para todos os efeitos, o da minha “morte matada” para aquela pessoa, tão importante para mim em tão importantes momentos da minha estúpida existência.
E percebi porque razão há quem fale em morte emocional e por que há quem tanto use a expressão “aquela pessoa morreu para mim”.
E doeu… ainda mais porque, do “crime” que motivou esta pena de morte, sei bem que estou inocente.
Por isso, como “manifestação de última vontade”, digo algo que ouvi atribuído a Jorge Luis Borges: "Se pudesse viver novamente, na próxima vida tentaria cometer mais erros". Pelo menos, gostaria de ter a honra de cometer mais erros de ser amigo como gostosamente cometi aquele.
Mereço pois que me rezem um “requiem aeternum dona eis, domine”.
Nem que seja no inferno…
Por muito que o tempo passe, por muitas vezes que tenha realizado ou tenha de realizar o ritual de arranjar flores (em tempos arrancava-as de propósito – preferia assim, não sei bem porquê) para prestar uma última homenagem a alguém que passou e, quase sempre mais importante, dar um abraço (de) amigo a alguém que chore essa passagem, por muito que me tente convencer de que tenho de combater em mim a dor, com tantos anos já, das passagens que me marcaram, que me doeram, continuo a dizer sempre a mesma coisa: não lido bem com a morte.
Mas, hoje, acho que a minha forma de a encarar piorou… a propósito de um velório, a que fui porque não prescindiria nunca de abraçar uma enorme amiga que sente e disfarça a dor da passagem de alguém que lhe foi muito querido, senti-me morto (matado não é correcto, mas expressaria melhor a sensação que tive: a de ter morrido de “morte matada”, como dizia, brincando, quando era puto, por contraponto à morte natural, a que chamava “morte morrida”).
Depois de ter estado um pouco com quem lá me levara, acima de tudo, tentei abeirar-me de uma outra pessoa que estava lá também e que – disfarçando de igual maneira – sentia, decerto, a mesma dor da minha amiga. Essa pessoa (de quem me sinto amigo, de quem senti amizade, durante muito e muito bom tempo, mas que me riscou do “círculo” por uma estupidez que sei mal ultrapassada, se é que ultrapassável) ostensiva e dolorosamente virou-me as costas e nem sequer me deu tempo para que a cumprimentasse, lhe transmitisse a vontade de estar perto para o que fosse preciso, como sinto que (alguém que se sinta) amigo deve querer estar: pura e simplesmente virou-me as costas…
Doeu-me. Doeu cá bem dentro, pela sensação de que aquele gesto era, para todos os efeitos, o da minha “morte matada” para aquela pessoa, tão importante para mim em tão importantes momentos da minha estúpida existência.
E percebi porque razão há quem fale em morte emocional e por que há quem tanto use a expressão “aquela pessoa morreu para mim”.
E doeu… ainda mais porque, do “crime” que motivou esta pena de morte, sei bem que estou inocente.
Por isso, como “manifestação de última vontade”, digo algo que ouvi atribuído a Jorge Luis Borges: "Se pudesse viver novamente, na próxima vida tentaria cometer mais erros". Pelo menos, gostaria de ter a honra de cometer mais erros de ser amigo como gostosamente cometi aquele.
Mereço pois que me rezem um “requiem aeternum dona eis, domine”.
Nem que seja no inferno…