domingo, 1 de setembro de 2024

NÓTULAS SOBRE O DESCONHECIDO…


 


A Senhora Presidente da Câmara Municipal de Espinho, Dra. Maria Manuel Cruz, deu ordem aos serviços municipais para que me fosse comunicado o seu Despacho 20/2024, pelo qual me exonerou das funções de Chefe de Gabinete do Município a que preside, com efeitos no dia de ontem.

E essa comunicação (no conteúdo e na forma), fez-me refletir sobre alguns “desconhecidos” que os últimos tempos me fizeram conhecer…

Um primeiro: o burnout (doença profissional que não desejo ao pior dos seres humanos).

Um segundo: o de que estar em burnout me deixou incapacitado para exercer uma atividade – profissional ou não – que exija esforço cognitivo: coisas que sempre tive por básicas (como escrever ou ler) são-me verdadeiramente penosas, neste momento.

Um terceiro (aliado, a esse): estes quase dois meses de incapacidade para o trabalho e a exigência de um médico de que “metesse baixa” pelo tempo necessário a recuperar.

Um outro (des)conhecido: saber que sou o responsável maior por este estado estúpido em que me encontro: levei o meu corpo e a minha mente para além de limites dos quais nem sequer me deveria ter aproximado; achei que trabalhar 12 ou 14 horas seguidas não me causaria dano, que não consagrar os fins de semana ao descanso não deixava mossa, tive a petulância de não dormir para ter tempo de fazer tudo o que me aparecia à frente para ser feito…

Pelo meio disso, tive de lidar com o desconhecido mais difícil de admitir: que ter vocação para as políticas não é a mesma coisa que ter vocação para a política…

E, se nada disso, agora, me é desconhecido, só ainda não sei quando recuperarei e me regressará essa capacidade (que me faz falta e me define como ser humano) de fazer vida dos problemas dos outros.

Vale-me, porém, a plena confiança de que as médicas e a psicoterapeuta que me vêm acompanhando me dizem a verdade, quando me asseguram que, com a paragem que me exigem, a medicação e a terapia, ela regressará e regressará mais cedo do que imagino.

Venham, pois, o tempo, as ajudas e a “paciência”, para que também o recuperar completamente seja um meu conhecido…

Até lá: vou ter de viver o mais estranho de todos os desconhecidos: o Carapeto inativo…

sexta-feira, 29 de março de 2024

SOBRE A “ÉTICA REPUBLICANA”…

 

Usar uma imagem (os créditos são da GNR) de um sinal amarelo de um semáforo pode parecer contraditório com aquilo sobre que me apetece escrever, hoje…

A primeira vez que me lembro de ter lido sobre a "ética republicana" foi na adolescência: fascinado pela I República e pelos seus (para mim) heróis, devorei algumas coisas de Teófilo Braga – entre outros – e o tema estava lá.

Hoje, republicano sempre (se calhar com mais convicção), o que então li deixa-me, para além da sensação de inocência relativamente ao que era, alguma dificuldade em reconhecer-me no pensamento maniqueísta de então: não é por ser da República que a ética republicana vale a pena; é por ser de quem gere os interesses da Comunidade com desapego, com sentido ético, com o guiar-se só pela lógica do servir e jamais pela do servir-se… e isso não aparece com a República, por muito que queiramos enaltecê-la e mesmo em face dos Joãos Francos desta vida (também eles das monarquias quanto das repúblicas)… Mas o conceito, confesso, nunca mais me saiu da cabeça.

Volto a dizer que a ética não é da República, mas tem de ser, seguramente, dos republicanos; para um republicano, o poder não é algo a que Ser Humano algum tenha direito; é sempre um dever (e os deveres têm sempre o outro (os outros!) como contraponto).

Percebe-se que quem entenda o poder como um direito seu, da sua família, do seu clã, da sua classe, lide mal com este conceito de ética republicana. Mas quem o veja como uma obrigação (nem sequer como um instrumento ou um meio), como um verdadeiro dever no trilho do caminho para o Dever-Ser(-se) (em Comunidade), esses lidamos bem com ele, gostamos dele, acarinhamo-lo, tratamos dele como coisa frágil e facilmente sujeita à (egoísta) natureza humana que é.

A ética republicana é uma visão sobre a ética social, enquanto forma de estruturação de uma Comunidade e de definição de um conjunto de comportamentos aceites e partilhadas no seu seio e distingue-se, mais que tudo, por ser orientada para uma ideia que nasce da Comunidade, se faz na Comunidade e serve (para) a Comunidade: o serviço público só o será verdadeiramente quando estiver ao serviço do Bem Comum.

Por isso, a imagem que associo a estas linhas faz para mim todo o sentido: no que toca àqueles valores, o sinal nunca está verde, está sempre amarelo… é preciso ponderar, ter a certeza de que é para a Comunidade que se trabalha, é imperioso ter a certeza de que a opção entre servir e servir-se nem sequer se coloca…

É para parar, não para arriscar e esperar que o vermelho não venha… porque ele está lá, implícito e (como se exige!) punidor!