Esta coisa
tem-me deixado numa angústia estranha e difícil de compreender.
E o estado em
que esta coisa me deixa vem da mentira, do que sou e do porque o sou.
Quando falo na
mentira é porque me dói tremendamente ler a barbaridade que "jornais"
como este atiram à consciência cidadã, enformando-a no sentido inverso do que é
a realidade e a vontade do legislador.
O que lei diz (e
quer!) é que o dinheiro que o Estado entrega aos privados para ensinar seja
gasto sempre e só com as crianças a quem o Estado confiou a tarefa de serem ensinadas
por aquelas instituições e não com qualquer outra coisa. Ora, se a refeição
para “ricos” custa mais do que a refeição para “pobrezinhos”, entregar
refeições iguais a todos não viola a lei; violaria, quando muito a capacidade
de uma instituição da ICAR de ganhar tudo o que ganha com a educação.
Ou seja (e para
dizer a verdade, porque importa cada vez mais dizer a verdade) , não é a lei
que proíbe que todos comam igual: é mesmo e só a opção da tal instituição da
ICAR e o seu intuito e postura perante o ato de educar.
E, se também
falo do que sou, é porque advogo a igualdade que reconhece que é trazendo todos
para o mesmo nível que se faz caminho (ou melhor: o caminho como o concebo).
É-me nojenta a
noção de que haja uma instituição de ensino que diga a crianças, logo na idade
em que as suas consciências se formam, que há lugares à mesa diferentes para
ricos e pobres e que, mesmo se os lugares puderem ser (ou tiverem de ser) os
mesmos, isso não significa as mesmas oportunidades para todos.
Vale por dizer
que sou completamente contra a noção (e contra a prática do conceito) de “meritocracia”
com que nos empanturram todos os dias (principalmente porque empanturra quem já
nasceu com oportunidades e faz passar ainda mais fome os que as não tiveram).
Sob o meu ponto
de vista, a luta da Comunidade não pode ser outra que não a de assegurar a de
que o filho do rico e o filho do jardineiro doméstica do rico tenham as mesmas oportunidades.
E sei que à mesa
(pelo menos) da escola isso também se ensina…
Sei-o porque
também o aprendi à mesa dos meus pais e com uma pequena estória explicarei porquê.
Há mais de
quarenta anos atrás, os meus pais eram dois funcionários públicos que, não sendo
ricos, mas beneficiando de um país que ainda não desrespeitava como hoje desrespeita
os seus servidores e ainda não tinha percebido que tinha mesmo de aumentar
salários (se é que já o compreendeu), podiam dar-se ao luxo de ter, todas as
manhãs, uma empregada doméstica. Era a Maria, a Maria que me aturou muitas
maluqueiras de criança rebelde e que eu olhava como uma espécie de irmã mais velha
(eu teria uns seis anos quando ela começou a trabalhar lá em casa, ela teria
uns dezassete, pelo que se percebe que a via como uma irmã muito mais velha).
E a estória é
esta: um dia, quando me deixaram convidar um amigo para almoçar lá em casa no
fim da escola, havia seis lugares à mesa.
Quando chegou a
hora do almoço, o meu amigo perguntou onde estava o meu pai. Ele teria contado
os seis pratos e só tinha sido capaz de ver como possíveis à mesa a minha mãe,
a minha irmã, a minha avó, eu e ele próprio; a pessoa em falta teria de ser o
meu pai…
Eu expliquei-lhe
que o meu pai trabalhava fora de Espinho e raramente conseguia almoçar connosco
e a minha mãe, percebendo imediatamente o que iria naquela cabecinha, disparou
algo como isto: “Maria, não te importas de sentar ao lado do Miguel?”.
A cara do puto
até deu pena…
Soube, depois do
almoço, o quanto aquela cena lhe tinha abalado alicerces: na casa dele, a empregada
não se sentava à mesa com os patrões, não comia o mesmo que os donos da casa.
Na casa dos meus
pais, sim: a “nossa” Maria era uma da casa, que se sentava no lugar que era dela;
e falava e ria e opinava e comia à mesa com toda a restante gente da casa…
A Maria era, além
de nos fazer o favor de ajudar a manter a casa arrumada e limpa e de cozinhar e
de ir à compras, uma espécie de irmã mais velha; mas, se não fosse, era uma
pessoa e merecia esse tratamento (de) igual.
E, bem vistas as
coisas, acho que também é por isso que eu ando com esta dorzinha: falta-me a
noção de que as mães daqueles “ricos meninos” têm sequer metade da humanidade
que a minha tinha… coisa que, mais que desesperança na humanidade, me enche
doloridamente de saudades da minha mãe.







